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As canções da Legião Urbana no palco

RESENHA: Um reencontro histórico da banda de Renato Russo com a cidade de Belém, depois do desentendimento de 1987

Elielton Amador Fotos: Internet
 
 
Foto publicada no perfil de André Frateschi do público em Belém: 12 mil pessoas

O show comemorativo da Legião Urbana, que aconteceu no último sábado,27, em Belém, foi um marco histórico para a cidade –  ou ao menos para a relação de algumas gerações da cidade com a banda de Renato Russo, oficialmente desativada em 1996, quando da morte do compositor e cantor, talvez o mais presente no “imaginário” da juventude brasileira desde o surgimento da banda.

Quando Dado Villa-Lobos, já na segunda metade do show no Hangar, comentou que a banda ficou 19 anos (sic) sem vir à cidade por causa de uma chinela Havaianas – jogada na cara de Renato Russo no único show do grupo na capital paraense em 1987 – ele mostrou a importância trágica de Belém para uma situação que se tornou mais eventual que de costume nas apresentações ao vivo da banda quando na ativa.

Vários vídeos no Youtube mostram cenas do último show ao vivo da Legião Urbana antes da morte de Renato. Em Santos, o cantor para na parte final da apresentação, depois de ser atingido por uma lata de cerveja ou refrigerante, e manda o autor do atentado “enfiar no c...” e afirma que “odeia” quando isso acontece.

Ou seja, era uma constante nem tão rara essa relação explosiva e contraditória com o público. Renato percebeu isso muito cedo e brigava com isso. Mudou o rumo estético da banda quando viu que o punk rock incitava certa violência e trilhou caminhos variados, do rock progressivo à música romântica, para se livrar desse estigma.

Mas talvez o maior inimigo de Renato fosse ele mesmo. Seu grande ego, sua personalidade exagerada, a mesma que compôs canções tão fortes quanto tantas que ele foi capaz de criar. Essas duas coisas, por exclusão e confrontação de sentidos, puderam ser percebidas da incrível e emocionante apresentação da Legião Urbana em Belém dessa última vez.

A ausência de Renato deixou as canções livres de sua personalidade “ciclotímica”, como o próprio Dado já declarou, fazendo com que a força das letras e melodias pudesse ser apreciada em sua plenitude. É incrível como a apresentação do setlist na íntegra do primeiro disco da banda mostra, mais de 30 anos depois, o quanto elas eram fortes. Era como ver uma banda pós-punk tocando ao vivo em seu auge. Era como ver o Clash brasileiro tocando, só que com uma performance musical muito melhor e com a estabilidade dos grandes espetáculos.

Ouvir músicas como “Soldados”, “Teorema”, “O reggae” e “Perdidos no Espaço”, que para as gerações posteriores tornaram-se “lados-b” dentro do repertório da Legião Urbana, com essa performance mostra como elas poderiam estar em discos de qualquer uma das muitas bem sucedidas bandas do rock brasileiro, como Skank,  Ira!,  Titãs ou Paralamas. Mas ao vivo, Renato esquecia as letras, se exaltava, enfim... Nunca era bom o suficiente, sempre era prejudicado pela sua insegurança.

Foto do perfil de @Luciancroach no Instagram. Bonfá a vontade com Belém

Não que Dado e Bonfá, ou mesmo o cantor convidado, André Frateschi, tivessem condições de superar a presença de Renato. Não se trata disso. Apesar de tudo, Renato era um grande cantor quando tinha as condições ambientais a seu favor, o que ao vivo era quase nunca. Mas isso deu espaço até para experimentações vocais. Foi lindo ver “Quase sem querer” ser cantada pelos “três tenores” em separado e depois ver a letra ser harmonizada nas três vozes, como um Beatles hard rock tupiniquim.

Foi emocionante também a incidental de “Guns Of Brixton”, do Clash, em “O Reggae” e muitos outros momentos, como o bis de “Faroeste Caboclo”, com todos os seus climas e variações. Até a participação de Marina Franco, com a fraca Dezesseis, que foi criticada em apresentações anteriores, ficou boa. Deu uma quebrada no ritmo e na pegada do show. Algumas performances de Dado, mais inseguro ele próprio que Bonfá, não prejudicaram em nada. Ao contrário, foi emocionante ver ele e Bonfá se soltando, cantando e dando vida a canções que se mostram a cada ano e a cada nova regravação mais fortes que seu autor.

O show tornou possível perceber, portanto, em sua projeção e confrontação históricas, a força de Renato como compositor. E isso talvez só fosse possível pela existência de seu “passageiro sombrio”, para usar uma expressão midiatizada pelo psicopata da série de televisão Dexter, uma personalidade exagerada que era capaz de se projetar em outras personalidades como a de João de Santo Cristo, a de um soldado em crise existencial, a de Johny, enfim, de centenas de personagens que eram ele mesmo, mas também podiam ser as milhares de pessoas que ouviam suas canções.

Mosaico do show em Belém do perfil de @jccrucks

Nem é preciso dizer (até porque também já foi dito) que o show é também um fato político. Também teve gente que tentou se oportunizar de canções e letras como “Que país é este?” para colocar Renato em uma posição crítica de certo lado da polarização ideológica que vive o Brasil hoje. Mas Renato, apesar de ser ele próprio um elitista de “classe média”, foi capaz de enxergar a essência do povo brasileiro, de sua juventude e de seus trabalhadores e de seus marginais. Muito antes da ascensão política de Lula, por exemplo, ele fez João de Santo Cristo pedir ao presidente “pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer”. Dificilmente ele se colocaria em papel desconfortável junto a seu público como o fizeram agora ícones dos anos rock 80 como Lobão e Roger.

Isso pode ser comprovado com a diversidade de gente presente ao show. Todas as cores, raças, orientações religiosas ou sexuais, classes sociais. Entrar no Hangar ou sair dele naquele corredor de gente, era viver a experiência dessa diversidade, que Renato, apesar de suas fraquezas, sabia identificar e, de certa forma, “consolar”. Isso era também sua fortaleza. Afinal, sempre vai existir a música, não é, Renato?

Renato Russo chateado em 1987

P.S. 1 -  Em tempos de redes sociais, artistas têm sido desmascarados por agirem em desacordo com um sentido percebido em suas canções. Outro dia, Roger (do Ultrage a Rigor) foi xingado de “coxinha” por um de seus fãs – ou melhor, por um fã de sua música. Hoje os consumidores de música sabem fazer a diferença entre a personalidade do compositor e o sentido de sua obra. Ter a presença de espírito que tiveram Dado e Bonfá, ao conduzirem o show com constantes elogios (ou quase isso) ao público de Belém, não quer dizer que eles sejam pessoas perfeitas, mas que sejam pessoas tolerantes e respeitáveis, assim eles nos dão o espaço necessário à música. E se tornam agradáveis. A performance prevaleceu, sem a presença do ego,  para que ela  fosse sublime mesmo nas limitações técnicas que eles, Dado e Bonfá, sempre demonstraram. E assim foi. Um momento histórico em Belém, com direito ao público cantando “Belém – Pará – Brasil” a plenos pulmões antes do show. Mostrando que, sim, Dado, Belém é distante. Onde os olhos não alcançam, às vezes, como diz aquela outra canção de outra banda local, a Norman Bates. Mais longe que Brasília. Não precisávamos de um boicote tão longo. Para se ter um noção do evento que foi o show da legião leiam o texto de Jorge Reis republicado no blog Tarati Taraguá.

P.S 2 – É preciso parabenizar a BIS Produções pelo evento. Tudo estava muito bem organizado. Até o balão da cerveja Tijuca que achei over demais antes do show começar foi, de maneira programada, esvaziado quando o show começou. Só achei que a área VIP do show era muito grande, tornando a pista livre praticamente uma “geral” de estádio de futebol, com a visibilidade prejudicada. Um amigo me encontrou nessa área e lamentou o fato de não saber que estaria tão longe do palco se soubesse que a pista era tão longe da área VIP. Ficou por ali e depois saiu. Ficou decepcionado e separado dos amigos que estavam no quadrado maior do show.

Nota sobre show da Legião em Belém

Setlist - Belém - Hangar 2016

 

1 - Será

2 - A Dança

3 - Petróleo do Futuro

4 - Ainda é Cedo

5 - Perdidos no Espaço

6 - Geração Coca-Cola

7 - O reggae (Guns Of Brixton)

8 - Baader Meinhof Blues

9 - Soldados 

10 - Teorema

11 - Por Enquanto

12 - Tempo Perdido

13 - Daniel na Cova dos Leões

14 - Há Tempos

15 - Dezesseis (Com Marina Franco)

16 - Meninos e Meninas (Com Marina e André)

17 - Eu sei

18 - Pais e Filhos

19 - Angra dos Reis

20 -  Teatro dos Vampiros

21 – Quase sem querer

22 – Índios

BIS

23 – Faroeste Caboclo

24 – Perfeição

25 – Que país é este?

29 de fevereiro, 2016 - 10h49
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Comentários (10):

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