Pará Musical
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Músicos Empreendedores  

A versatilidade como força musical

Saulo Caraveo é pesquisador, professor, empreendedor e fala como o músico deve se posicionar hoje

Por Elielton Nicolau Amador*
Saulo Caraveo é profissional versátil e como pesquisador estuda também as guitarradas

 

Quando cheguei na G2, a escola de música de Saulo Caraveo, pensei em entrevistar mais um músico empreendedor. Mas fiquei surpreso quando descobri também tratar-se de mais um pesquisador da área da música. Surpreendeu-me saber que ele era tão versátil que pedi para gravar um vídeo tocando uma guitarrada. É o vídeo que você verá ao final dessa entrevista.

Conversamos sobre a trajetória do artista e sobre o momento atual do Brasil, o mercado e a pesquisa que ele desenvolve sobre a música paraense. Foi me falou sobre seu artigo baseado da conversão semiótica de João de Jesus Paes Loureiro – conceito sob o qual o significado de algo pode mudar de acordo com o olhar e o contexto, e que se baseia na observação do olhar e da vivência do homem da Amazônia.

Ele também falou sobre seu livro, por ocasião da Feira Pan-Amazônica do Livro. Foi um papo agradável que tenho certeza também vai agradar a estudantes, aspirantes a pesquisadores ou simplesmente amantes da música. Aproveitem.  

Vamos começar do começo, como e quando começaste a tocar?

Comecei a tocar em 1997. Estou com 40 anos e comecei com 21, portanto, comecei bem tarde. Ao contrário do que muita gente acha, eu não comecei muito cedo. Comecei a tocar quando estava no segundo ano de engenharia elétrica na Universidade Federal do Pará. Comecei a estudar somente quando eu decidi ser músico mesmo. Meu pai sempre me incentivou nesse aspecto, tinha violão em casa, tinha bateria, teclado, mas nunca tinha levado a sério. Em 1997, quando eu recebi a proposta de entrar na banda Soledad eu comecei a tocar guitarra. Aprendi a tocar guitarra para tocar na banda. As primeiras músicas que aprendi foram as músicas da banda.

E depois da banda como foi a tua trajetória?

De 1997 até 2001 a gente conseguiu se manter na banda. Era uma cena efervescente, tinha muita gente e muitos festivais. Eu lembro do Rock 6 horas, outros festivais na Cidade Nova, enfim, a gente respirava aquele clima dos festivais e era uma empolgação grande. Em 2001, fui para São Paulo, onde me graduei em guitarra pelo Instituto Guitarra e Tecnologia (IG&T) e estudei com Mozart Melo, que é um dos maiores professores de guitarra do nosso cenário brasileiro. Formei em 2004 em guitarra fusion, que é uma das especializações que eles têm lá. Depois eu voltei para Belém e fiz alguns trabalhos na noite, por questão financeira. Final de 2006, novembro para ser mais exato, eu decidi abrir a minha escola, a G2. Vamos comemorar 10 anos mas somente em 2017 porque oficialmente as primeiras turmas iniciaram no ano seguinte. Fizemos primeiro a reforma, ainda era uma escola pequena na Rua dos 48, próximo ao Shopping Iguatemi.

Mas este ano já tens uma produção relevante porque tem um disco e um livro né?

Na verdade, quando eu resolvi ser músico eu queria abraçar o mundo. Fui estudar, voltei, me formei pela UEPA. Sou formado em Licenciatura Plena em Música.

Voltaste e ainda fizeste o curso...?

Quando eu fui para SP eu já estava no segundo ano da faculdade de música. Como eu comecei a tocar na noite, era muito difícil acompanhar. Eu tive que trancar alguns semestres. Mas consegui me formar em 2014, depois que voltei de São Paulo. Mas decidi largar definitivamente a noite, porque essa coisa de tocar na noite, sabe como é, você acaba perdendo a energia para o dia. Agora a minha energia está mais voltada para a produção em torno da escola. Todos final de semestre a gente faz uma grande apresentação dos alunos, que deixou de ser só uma apresentação e virou um grande espetáculo. Tanto que todos os nossos eventos agora são no Teatro Margarida Schivasappa.

E com relação ao CD?

Eu lancei o CD mais para mostrar minhas músicas. Eu sempre compus. Mas nunca compus para alguém cantar. E também nunca tinha pretendido cantar. Decidi lançar o disco e, então, eu mesmo fui cantar. É um EP, chama “Órbitas e Gravidades”. E me lancei como compositor, como cantor também. Sempre estudando. Estudei canto com a lana Almeida. Fiz alguns shows. De vez em quando pinta um convite e a gente viaja com ele (o CD).

Sobre o livro?

O livro é sobre guitarra elétrica. Surgiu quando eu estava estudando e percebi que eu sempre seguia os mesmos passos nesse estudo. Então, criei o que é o título do livro, “Roteiro de estudo, guitarra elétrica em alto rendimento”. Foi muito legal porque me lancei como autor. Tem registro do ISBN e tudo. Isso foi no final de 2015, quando consegui publicar e agora estou com o material impresso para lançar no dia 4 de junho na feira do livro, no estande do autor paraense.

Antes de começar a gravar estavas falando que és pesquisador, também. Fala um pouco sobre isso.

Eu sempre gostei muito de estudar, especialmente a música. Quando fazia engenharia eu era um bom aluno também. Mas quando entrei na música comecei a estudar muita coisa. Não é a toa que me formei com honras no IG&T. E na pesquisa sempre pesquisei em relação à guitarra, tanto que o artigo que acabei de aprovar em um encontro de musicologia é sobre a guitarrada.

Olha, que interessante, sobre qual aspecto da guitarrada?

O meu trabalho para o mestrado é sobre análise de obras do Mestre Vieira. Já tem alguns trabalhos sobre a guitarrada interessantes, inclusive do Bernardo Mesquita, que era o baterista daquela banda, que eu não lembro o nome, como é?

Mangabezo...?

Isso mesmo, Mangabezo, que era a banda do Vladimir Cunha e do Carlinhos Vasconcelos, né? Pois é, ele escreveu um trabalho muito interessante sobre a guitarrada. E como eu sou paraense, eu busquei essa coisa da identidade das guitarradas.

Meu orientador no mestrado, o Prof. Fábio Fonseca de Castro, também tem um artigo sobre as guitarradas. Inclusive, ele escreveu esse artigo depois que eu entrei no Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia, onde eu me formei Mestre, e onde ele é coordenador hoje.  Eu levei algumas obras para ele, inclusive o TCC do Pio Lobato, que pouca gente tem hoje, no qual ele baseou a análise dele.

Eu li o trabalho dele, e faço citações a esse trabalho. São três abordagens diferentes. A alma é sempre o trabalho do Mestre Vieira, mas o Castro já aborda mais a questão sociológica, a questão em torno do movimento da guitarrada. O Bernardo faz uma busca epistemológica, da trajetória e das influências caribenhas, afro e latinas, da guitarrada. O do Pio Lobato eu não li porque eu não tinha, eu li apenas uns trechos. Mas ele é pioneiro porque o trabalho dele é de 2001. O Bernardo é de 2009, e o Castro de 2013, eu acho. Este que eu aprovei agora é uma ideia que eu tive a partir da obra do João de Jesus Paes Loureiro, que é sobre a conversão semiótica, um conceito que ele desenvolveu sobre a arte. Achei muito interessante essa teoria que ele lançou. Encontrei nessa abordagem uma ligação com a semiose, e aí, a gente vai se remeter a Sausurre e a Pierce. Encontrei algumas ligações muito interessantes entre esses conceitos e esse movimento da guitarrada. O nome do artigo é “Mestre Vieira e a Guitarrada, dois casos de conversão semiótica”. Eu falo sobre a mudança de significado que Vieira e a guitarrada sofreram em relação ao Pará e a nossa cultura. Hoje muita gente diz que a guitarrada virou um gênero genuinamente paraense. Mas a partir de que momento e a partir de que contexto? Vieira é considerado “mestres dos mestres da guitarrada”. Houve uma mudança de caráter simbólico. Ele era um ribeirinho como outro qualquer e ele se transformou nesse tipo de “herói paraense”. É isso que a gente chama de conversão semiótica.

É interessante essa tua abordagem. Eu trabalho um pouco com essa visão, conheço o conceito do Paes Loureiro, mas falo sob a perspectiva da “intersubjetividade”. O título da minha dissertação é “A Cena Fantasma, um olhar sobre a experiência da música massiva da Amazônia”, é uma abordagem fenomenológica. Estou com uma carta da Tó Teixeira para lançar em formato de livro (precisa apensas de patrocínio). Mas uma curiosidade: não leste esse trabalho do Pio porque ele é meio raro. Eu pedi para ele, mas ele não tinha. Há muitos anos eu fui na UFPA e pequei uma cópia para mim.

Pois é, eu gostaria muito de ter uma cópia desse TCC, se você puder disponibilizar. Eu falei com o Pio, mas ele disse que não tem e disse que roubaram de lá da Federal. Eles não têm mais a copia deles lá!

Disso eu não sabia. Agora minha copia é ainda mais rara (risos). Eu fiz uma cópia recentemente para uma produtora da TV Cultura que estava orientando uma equipe de São Paulo que está produzindo um filme longa metragem, se não me engano. Eu tenho no meu arquivo, posso disponibilizar, claro. Sem problema. Mas, mudando de assunto, tu és do metal, né? Tem esse contraste. Como tu vês o mercado musical hoje.

Eu sou filho do heavy metal, que é um gênero que não é nativo daqui. Mas o Soledad chegou a fazer algumas misturas em relação a isso. Sobre o mercado, eu fico meio “assim” para falar né? É tanta coisa acontecendo no país hoje, questões políticas, questões sociais, econômicas... O Brasil está muito extremista em relação às questões ideológicas. Tem as questões de gênero, a lutas das mulheres, a divisão do país entre esquerda e direita. Acho que são posições muito extremistas, isso de alguma forma reflete nas artes.

Mas como tu achas que o artista tem que se posicionar em relação a isso?

O que eu acho ruim é quando o artista se manifesta de esquerda, automaticamente, quem é de direita chama ele de “petralha”, e aí boicota o show desse cara porque ele se mostrou esquerdista. E o contrário também ocorre, por que o cara se mostrou de direita ele não é intelectualizado, por que só é intelectualizado quem é de esquerda? Então, como o artista está no meio desse fogo cruzado, ele até fica com receio de mostrar as suas próprias posições políticas e ideológicas. Esse é um dos aspectos. Outra coisa é a questão dos gêneros musicais. Não existe mais a grande indústria. A mídia alternativa ganhou muita força. Você vê e tem muitas bandas. As bandas e artistas produzindo seus próprios clipes, muitas vezes conseguem marcar uma turnê por causa dessas mídias e dessa produção. Hoje você não precisa mais ir para a Globo para marcar uma turnê pra ti. Outra coisa são os projetos, as leis de incentivo. O artista hoje tem que ser mais versátil, tem que aprender a escrever projeto, tem que fazer o seu próprio marketing, tem que ser professor, tem que escrever. Eu sempre digo, você tem vários caminhos, pode ser instrumentista, ou pode ser artista, que é diferente.

Recentemente eu entrevistei um amigo, o Leonardo Salazar, que está lançando a segunda edição do livro “Musica Ltda – O negócio da música para empreendedores” (Você poder ler aqui). Na primeira edição, ele listou mais de 20 atividades que o músico pode desenvolver para ganhar dinheiro...

Pois é, eu desenvolvo essas 20 e mais algumas (risos). Hoje em dia tem que ser assim mesmo. 

 

*Elielton Nicolau Amador é músico e produtor. Jornalista por formação, também é pesquisador mestre em ciências da comunicação. 

03 de junho, 2016 - 14h47
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