Pará Musical
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O negócio da música para empreendedores

Pará Música entrevista com exclusividade Leonardo Salazar, autor do livro Música LTDA, que está em sua segunda edição e chega a Belém

Por Elielton Nicolau Amador Foto: Divulgação
 
Salazar, autor, jornalista por formação, contador e produtor executivo de artistas
 
 
      Conheci Leonardo Salazar, 36, quando eu era um dos gestores do Pará Pró Música, projeto do Sebrae-PA que trabalhou com vários empreendedores do setor em Belém, tentando profissionalizá-los, por volta de 2010. Era um momento de efervescência, o governo do estado, alinhado com o governo federal, inaugurava novas políticas públicas (como os pontos de cultura) e Salazar, que trabalhou como produtor em Recife dando apoio a bandas como a banda Eddie, havia lançado o livro "Música Ltda : O negócio da música para Empreendedores". Até hoje o livro é referência (entre outros títulos) para as aulas, cursos e palestras que ministro sobre carreira e a sociologia da música.

Foi um impacto grande sobre o cenário alternativo porque ninguém até então tinha sistematizado de forma objetiva as etapas, fases e oportunidades produtivas no complexo negócio da música. Lembro que Penna Schimidt comprou dez exemplares e mandou aos melhores amigos músicos.

Agora, Leonardo está lançando a segunda edição, revista e ampliada desse livro, que é no Brasil o equivalente mais próximo do Music Business Handbook and Career Guide, de David e Tim Baskerville – livro que é para os estudantes de música americanos o que o Vade Mecum é para os estudantes de Direito no Brasil. É feito a se comemorar.

Na próxima terça-feira, Leo Salazar, estará em Belém para um seminário promovido pelo Boulevart. Uma ótima oportunidade para conhecer esse trabalho tão importante para a profissionalização da música, principalmente nas cenas mais periféricas como Belém.

Além de autor do livro “Música Ltda: o negócio da música para empreendedores”, Salazar é especialista em Gestão de Negócios, bacharel em Jornalismo e técnico em Contabilidade. Também é instrutor e consultor do SEBRAE. Salazar trabalha com o negócio da música desde dezembro de 2001. Durante sua caminhada, participou de aproximadamente 250 eventos musicais, em 70 casas de show e 36 festivais, passando por 36 cidades de cinco países e dois continentes. Foi assessor de imprensa, assistente de produção, empresário/agente/produtor de artistas, promotor de shows, tour manager no Brasil e em alguns países da Europa, produtor fonográfico, editor musical e administrador da própria microempresa de produção musical.

Ao Pará Música ele concedeu uma entrevista exclusiva por e-mail falando sobre a nova edição, sobre empreendedorismo e o momento atual da cultura no Brasil. Leia abaixo. 

Ainda dá para fazer da música um negócio lucrativo no Brasil?

A música sempre foi um negócio lucrativo no Brasil, desde quando surgiu o primeiro estúdio de gravação em 1900 no Rio de Janeiro. O fato é que o músico é quem menos ganha dinheiro com a música, por vários motivos, dentre eles, principalmente, distanciamento das questões "comerciais" por acomodação ou despreparo mesmo.

Basicamente o que mudou entre o cenário que existia quando você lançou a primeira edição do teu livro e o cenário desta segunda edição?

Eu tive que fazer várias atualizações. Principalmente mudou a legislação e a jurisprudência, por exemplo, o STF decidiu que o músico não precisa estar filiado à órgão de classe nem a estar quite com a anuidade para exercer a profissão, ou a mudança na lei de direitos autorais quanto à gestão coletiva, incumbindo ao Ministério da Cultura o dever de fiscalizar o Ecad e as sociedades de autor. Também acrescentei novos capítulos e criei um glossário com os principais termos técnicos do setor musical, que traz a definição de importantes palavras usadas no cotidiano mas pouco esclarecidas, como "fonograma", "videofonograma", "sincronização", "empresário" etc.

Onde é melhor fazer negócio, na rede ou ao vivo presencialmente?

Em todo lugar, entendendo que o ambiente físico e o meio digital são espaços complementares, os dois podem dar resultados efetivos ao artista quanto às estratégias de marketing. Em termos financeiros, o volume de recursos que circula nos shows remunera melhor o músico, diferente do que ocorre nas plataformas de streaming, por exemplo, onde o músico recebe quase nada.

Quais as principais plataformas de divulgação hoje?

Com certeza o YouTube e as redes sociais, além das rádios e da tevê (ainda). Novamente, o físico e o digital se complementam novamente quando o assunto é comunicação. As rádios e as tevês tem uma penetração impressionante na sociedade brasileira, estão presentes em 95% das residências, mas é um meio de comunicação excludente que só privilegia os artistas de gravadoras. A internet é um espaço mais democrático, 66% das pessoas acessam o YouTube para ouvir música, às vezes nem tem um vídeo mas só a capa do disco ou a foto do artista com a música sendo executada. Mas o artista tem que entender que colocar um clipe no YouTube não faz sucesso por conta própria, tem que investir dinheiro criando uma estratégia para atrair a audiência e gerar os resultados esperados. Muitas vezes o músico gasta todo seu dinheiro para gavar um disco com 12 músicas e não tem nenhum dinheiro para promovê-lo, então, nesse exemplo, seria uma estratégia mais eficiente para quem tem poucos recursos aplicar um pouco para gravar um clipe, porque você gera dois produtos (o áudio e o vídeo), e gastar a maior parte do dinheiro para promovê-lo usado as redes sociais e também as mídias eletrônicas (rádio e tevê, pois ainda existem programas que dão espaço para novos talentos e artistas independentes).

 

FAÇA O DOWNLOAD Gratuito do livro "Música Ltda: O negócio da música para empreendedores"

 

Como é seu trabalho cotidiano? Ainda trabalha com artistas na gestão de carreira e negócios? Como funciona?

Há cinco anos eu parei de trabalhar como empresário artístico, nesse tempo eu coloquei meu foco na criação e no desenvolvimento de meu escritório de contabilidade e de apoio administrativo, meus clientes são todos artistas e produtores culturais, eu faço abertura de empresas, contabilidade fiscal e trabalhista, prestação de contas de projetos culturais, enfim, dou todo o suporte necessário na gestão contábil-financeira das carreiras artísticas dos meus clientes.

Que artista ou movimento musical você apontaria como case de sucesso e por quê?

Dentre meus clientes, eu destaco o grupo musical Quinteto Violado, eles tem 43 anos de carreira, são mais de 40 discos lançados, eles tem CNPJ desde 1981, todos os músicos e técnicos possuem carteira de trabalho assinada, tem direitos como INSS, FGTS, férias, décimo terceiro salário, ainda existe um plano de saúde corporativo para todos, enfim, é um exemplo de que organizar a gestão de uma banda não significa menosprezar a parte artística, pelo contrário, significa potencializar seu desenvolvimento.

Como podem artistas de cenas periféricas, como a cena de Belém, que apesar do destaque nacional, continua a margem do mercado, podem se sair melhor nesse novo cenário?

Em qualquer lugar do mundo, a receita para desenvolver uma carreira musical é composta por dois ingredientes: o talento a gestão. O talento sem a gestão é só uma diversão, um passatempo. Então tem que buscar nas ferramentas de administração uma forma de organizar e profissionalizar a carreira musical. O fato de o artista estar em uma cena periférica, como Belém ou Recife, pode contribuir se os agentes desse mercado atuarem de forma colaborativa, eu acho que em Belém isso existe, por exemplo, tem um festival (o Se Rasgum), tem uma loja/distribuidora de discos (Ná Figueredo), tem a galera do tecnobrega e das aparelhagens etc. Aqueles agentes que souberem transforar sua carreira musical em um negócio, aplicando os conceitos e as ferramentas de gestão, evidentemente que esses irão mais longe, alcançarão melhores resultados. Ser um negócio não desqualifica o trabalho de ninguém, às vezes o músico precisa fazer uma terapia para resolver esse conflito interno, afinal de contas não existe problema algum em aprender a ganhar dinheiro fazendo o que gosta, pelo menos essa é a minha opinião.

Qual a perspectiva para quem trabalhava com editais públicos e leis de incentivo com o advento do governo provisório Temer?

O cenário atual é extremamente incerto e imprevisível. Eu acredito que essa nova gestão (provisória) do Ministério da Cultura realize várias mudanças, inclusive com a descontinuidade de alguns programas e editais. Sendo que a gestão anterior já estava com o cronograma de pagamento dos editais atrasado. Então de repente esse freio de arrumação até coloque as contas em dia. Como eu disse, o cenário é muito incerto e imprevisível.

 

A iniciativa privada brasileira pode financiar ou patrocinar diretamente a produção musical brasileira?

Acho que tem que mudar a forma como os agentes econômicos da música enxergam o setor empresarial brasileiro. Esse papel de mecenas do setor empresarial não resolve todos os problemas de financiamento do setor musical. Tem que haver mais diálogo para se chegar a novos arranjos que resolvam os problemas mútuos. Por exemplo, uma empresa pode financiar a gravação de um disco do artista como retribuição pela produção musical de jingles publicitários. A produção musical brasileira precisa se colocar na condição de parceira do setor empresarial, falado de igual para igual, trocando serviços em prol de resultados, em vez de favores.

Existe econômica crise para a arte no Brasil? Se, sim. Você acha que temos perspectivas de superá-la e como?

O mercado da arte possui algumas características econômicas, uma delas é a retração quando diminui a renda das pessoas, pois os produtos culturais são classificados como bens de luxo. Outro fator econômico que afeta negativamente o mercado da arte é a alta elasticidade da demanda, ou seja, quando os preços sobem, a demanda pelos bens ou serviços culturais diminui. Uma solução é criar ofertas de produtos e serviços acessíveis para as pessoas, revendo a estrutura de custos da produção artística. Uma pesquisa da Fecommercio/ipsos revelou que o brasileiro acha justo pagar R$ 10 por um CD e R$ 23 pelo ingresso de um show. Então o produtor musical precisa alinhar suas estratégias de precificação com o comportamento do consumidor, nesse caso, o fã de música.

E a crise existencial? Como lidar com ela? Ou isso não interfere nos negócios?

Fazendo terapia, tantas sessões quanto forem necessárias. O sucesso é um resultado feliz (uma conquista) para um profissional, então o conceito de sucesso é pessoal, cabe a cada profissional definir seu próprio conceito de sucesso, e alinhar sua missão de vida pessoal (propósito e valores) com sua atividade profissional, sempre aprendendo como se ganha dinheiro (com a profissão escolhida) para alcançar suas metas, seja pagar suas contas, ter uma família, comprar uma casa, fazer uma viagem, etc.

Você ainda escuta música? Que tipo, que artista? Onde, no carro, no celular, em casa?

Escuto música todos os dias, em casa, no trabalho, no lazer. Tenho muitos CDs, recentemente assinei o Spotify, mas também acesso o SoundCloud e o YouTube para ouvir música, e escuto principalmente no celular ou no tablet conectando a uma caixa de som que reproduz a música com uma qualidade superior e uma experiência mais agradável do que os fones de ouvido. Também gosto muito de ir a shows para ouvir música, encontrar com os amigos e me divertir.

Nesses tempos de fim de Minc muita gente tem chamado artista de vagabundo. Você acha que existem motivos para a classe média pensar desse jeito? O que os faz pensar assim?

O presidente interino Michel Temer recriou o Ministério da Cultura após fortes protestos da classe artística. Esse fato colocou em evidência a Lei Rouanet e suas fragilidades, fazendo com que as pessoas criticassem, por desconhecimento de como funciona esse mecanismo de patrocínio cultural, os artistas em geral, chamando-os de vagabundos. Acredito que pesou também o efeito viral das redes sociais, pessoas compartilhando notícias falsas sem antes fazer uma análise da veracidade e da credibilidade da fonte.

Qual o papel do artista para a sociedade já que a arte é considerada um bem "de luxo"?

Sobre a arte ser um bem de luxo, essa é uma caracterização exclusivamente econômica, tem relação com o papel do artista na sociedade como um agente econômico. Mas nós sabemos que o artista desempenha outros papéis na sociedade que vão muito além de fatores econômicos, sobretudo elementos estéticos e relações sociais.

 

*Elielton Amador é jornalista e produtor,  mestre Ciências da Comunicação, e sua dissertação foi sobre a Cena Musical de Belém em relação do seu contexto nacional e global. 

28 de maio, 2016 - 10h16
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Comentários (10):

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