Pará Musical
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Sob os rótulos, a essência

Entrevista com a cantora e compositora Marisa Brito, da banda A Euterpia, revisitando a trajetória

Por Elielton Amador* Foto: Fernanda Brito, Renato Reis e Tatiana Vieira
 
Reflexos - Marisa em foto de Fernanda Brito na época da A Euterpia
 
Ontem o dia foi corrido. Com o velório do amigo Gerson Costa, da banda Baby Loyds, e as tarefas do dia a dia, não deu tempo de editar e publicar a entrevista que fiz na noite anterior com a cantora Marisa Brito, da banda A Euterpia, que deve ter feito um show emocionante ontem na programação do festival Se Rasgum. Manter um site independente, atualmente sem patrocínio não é fácil. Mas a tecnologia, bem utilizada (de forma criativa) pode ajudar.
 
Foi assim que conversei pelo chat do Facebook com Marisa, que, aliás, foi muito atenciosa. Não podia ser diferente, Marisa é uma amiga, uma querida, com quem compartilhei uma parte da trajetória na cena de Belém – fosse tocando com o Norman Bates nos mesmos festivais (só o Se Rasgum foram as três primeiras edições), fosse com o Suzana Flag ou como produtor e jornalista. 
 
Celebrar esse tempo nos faz relembrar histórias e reviver o sentido das coisas. É mais ou menos o que faz Marisa nessa entrevista, falando sobre a trajetória d’A Euterpia, sobre o mercado musical de hoje e sobre o encontro de ontem. Era para ser publicada antes. Mas o registro não perde em nada por estar sendo publicado um dia depois do show. Sua reflexões são consistentes e atuais e valem para todo o momento da música. 
 
Marisa tem 32 anos e entrou na A Euterpia com 15 anos. Formou-se em canto, graduada em licenciatura em música e pós-graduada em canção popular. Trabalha atualmente com preparação vocal e é professora de canto em São Paulo, onde mora desde 2008. Vem fazendo trabalhos pontuais na música, o que inclui a participação como backing vocal no DVD ao vivo do guitarrista Edgar Scandurra, entre outros trabalhos. Ela está compondo e em breve deve estar com novo trabalho. Confira na conversa abaixo, em que mantive alguma coloquialidade virtual, obviamente editada. 
 
Há quanto tempo vocês não tocam juntos?
 
A banda terminou oficialmente em 2009. Mas chegamos a fazer dois reencontros desde então. O último foi em 2013. Encerramos as atividades da banda como eram antes. Com rotina de trabalho, de shows, para priorizar outras coisas... Mas nunca deixamos de estar conectados de alguma forma. 
 
Como surgiu a ideia desse show, estava planejado desde quando?
 
Já está planejado há uns três meses. O Antonio [Novaes] jogou a ideia para o [Marcelo] Damaso... E pouco tempo depois, a produção do festival veio com uma proposta oficial. Achamos que foi uma oportunidade muito especial tocar no Se Rasgum, que faz parte da nossa história. 
 
E como tem rolado os ensaios? Vai pintar alguma coisa nova no repertório?
 
Como a programação do festival é bem organizada com relação ao tempo, nós tivemos que adequar o repertório ao tempo que nos foi estipulado. Vai rolar 50 minutos de música... Por isso priorizamos os hits, as músicas mais pedidas em shows da historia da banda. A base do repertório será o disco “Revirando o Sótão”. Nessa ocasião não haverá músicas novas.
 
E por falar em música nova, o que você anda fazendo na área musical?
 
Nos últimos dois anos, eu fiz trabalhos bem pontuais. Nenhum projeto fixo. Trilhas, preparação vocal em peças de teatro, além de continuar trabalhando como professora de canto. Fiz participações em alguns projetos de outros artistas. E ando compondo... mas coisas que ainda não mostrei por aí. Acho que está chegando a hora de dar um novo gás nesse projeto, para colocar essas músicas para circular. 
 
Ah, sim, por favor, faça isso por nós, seus fãs...
 
Emoticon heart.
 
No primeiro Se Rasgum em foto de Renato ReisVocê disse que o Se Rasgum faz parte da história de vocês. Na verdade, o festival marca uma época, com toda uma cena, talvez por ser o filho dessa época que prosperou, enquanto muitas bandas da mesma época acabaram ou tiram longas férias, como é o caso do Eletrola, que também está vivendo esse revival no festival. Como você se vê hoje, revisitando a cena musical de Belém?
 
Sim. As festas do Se Rasgum foram fundamentais para fomentar aquela cena... um período muito especial. Depois, com a chegada do festival, que foi amadurecendo cada vez mais e diversificando de acordo com a cena de cada período ao longo desses 10 anos. É gostoso reviver uma época que foi tão boa... Acredito que muita gente é saudosa com relação a essa época, né? A cena hoje tem muita novidade, muita gente boa criando e fazendo muito som, dentro de outros estilos. E é gostoso ver o passado e o presente se misturando, dialogando. 
 
Você acompanha a cena musical de Belém hoje? O que você de diferente dessas duas épocas?
 
Acompanho pelas redes sociais. Tento estar ligada, sabe? Não sei se consigo fazer uma análise tão boa, pois não estou vivendo tão de perto... Mas hoje eu acredito que muita coisa ficou mais fácil... Hoje a forma de divulgar música mudou, tem a ver com as mudanças do mundo mesmo, não é algo só da cena daqui. Na nossa época, as coisas eram mais lentas. Pra gente conseguir espaço pra tocar música autoral era um parto... Só depois que isso começou a mudar. E nisso as festas da Se Rasgum foram fundamentais. Então, acho que as bandas que são da mesma época que A Euterpia pegaram uma fase bem difícil, bem de transição mesmo. Quando as coisas começaram a se movimentar legal, a banda já estava ralando há alguns anos. Começamos em 1998. Acho que você melhor do que ninguém entende do que estou falando, porque deve sentir a mesma coisa com o Norman Bates, né? Até para gravar, hoje está muito mais acessível. 
 
Sim, naquela época, as dificuldades eram maiores...
 
Hoje vejo uma quantidade maior de estúdios aqui, salas de ensaio melhor equipadas.
 
Em foto recente de Tatiana Vieira, em SP onde mora atualmente
 
Mas hoje talvez haja outras dificuldades também... a "audiência" está mais dispersa pela rede, onde o conteúdo é muito grande e poucas pessoas prestam atenção na música...Concorda?
 
Concordo totalmente. Acho que toda época terá seus pros e contras. Hoje é muita informação. Hoje querem tudo muito rápido, né? Acho que música é algo que sempre vai mover as pessoas, porque vai muito fundo na alma... Mas hoje as pessoas realmente são mais dispersas. A maioria não tem mais paciência de parar e ouvir um álbum inteiro do início ao fim. Se colocam para elas ouvirem, elas ouvem fazendo mais três coisas ao mesmo tempo... Isso não afeta só a questão do ouvir, afeta tudo, né? Hoje também estamos numa fase muito visual. Tanto que hoje o esquema é lançar single.
 
 
Sim... tem isso também. Além de estúdios para ensaiar hoje temos que ter material para produzir videoclipes etc. Mas, fora isso, queria saber de você, que está morando em São Paulo, como vê a música brasileira hoje?
 
Vejo que existe uma grande riqueza e diversidade de sons, estilos, propostas... E vejo também que toda essa velocidade que o mundo vive hoje, influencia em todos os cantos. Hoje podemos nos conectar e trocar ideias com músicos de todos os cantos do mundo... Podemos pesquisar com maior facilidade, e isso é maravilhoso. Tanto que hoje eu percebo que em geral, os trabalhos musicais não são mais fechados num único estilo. Isso era algo que A Euterpia sempre teve... Essa mistura de estilos. Talvez hoje ficasse mais fácil para A Euterpia se adequar ao mercado. Há 10 anos isso era um problema. Os produtores queriam enquadrar a gente numa única prateleira, e a gente não queria isso. E foi o que complicou um pouco para a banda se firmar num mercado mais abrangente. Essa necessidade de ter um rótulo único, para o nosso tipo de trabalho, seria como engessar, matar nossa essência.
 
Entendo. Vocês falaram, dentro da banda, sobre alguma possibilidade de retorno?
 
Retorno como era antes, não. Mas ela vai continuar sendo um projeto nosso. Temos planos de uma possível gravação de um novo disco. Mas agora sem a pressão que existia naquele auge. Isso ainda é apenas uma ideia que surgiu. Não tem nada formatado oficialmente. 
 
Foto do ensaio de capa do disco "Revirando o Sótão", de 2006
 
*Além de editor do site Pará Música, Elielton Amador foi guitarrista das bandas Norman Bates, Pig Malaquias, Coletivo Rádio Cipó e Suzana Flag.
19 de novembro, 2015 - 06h51
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