Pará Musical
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Antes da Chuva  

O Rei das Guitarradas vem aí

Com patrocínio do Conexão Vivo, Mestre Vieira será protagonista de DVD show e documentário

Por Elielton Amador* Fotos: Renato Reis
Joaquim de Lima Vieira, aos 77anos, o rei da guitarrada

 

Agosto de 2002. É um dia de semana e já passam das 10h. Estou no hall do Hilton Hotel em Belém acompanhando o guitarrista Pio Lobato e esperando o DJ Dolores e a curadora do projeto British Popular Music/Música Popular Brasileira, Tamsin Austin, do British Council. Vamos até a casa de Mestre Vieira, em Barcarena, onde a inglesa vai filmar o inventor das guitarradas. Os paraenses, os brasileiros, parecem nada ocupados de Vieira: o time do Paysandu acabara de chegar, no mesmo vôo dos nossos visitantes, de Fortaleza, onde ganhara a Copa dos Campeões contra o Grêmio. Vieira vive um certo ostracismo. Não havia movimento na casa onde uma pequena equipe registrou seu depoimento, falando, entre outras coisas, como ele fez do aparelho de rádio a pilha seu primeiro amplificador de guitarra.

Naquele ano, Vieira começava a ser “redescoberto”. Depois de ter lançado em 1978 seu primeiro disco, "Lambadas das Quebradas Vol. 01", o precursor de um gênero marginal que proliferou pelas rádios e bares do Norte/Nordeste, principalmente entre os estados do Ceará e de Pernambuco, onde Vieira tornou-se muito popular e vendeu segundo os registros de sua produção mais de 500 mil cópias. Ele tocou com seu conjunto até o início dos anos 1990, quando a lambada comercial de Beto Barbosa e banda Kaoma assumiram a linha de frente do mercado. Em mais de uma década foram quase dez discos.

Em 2003, Vieira lançou um disco junto com Pio, Mestre Curica e Aldo Sena, os “Mestres da Guitarrada”. Produzido e lançado pela Fundação de Telecomunicações do Para – Funtelpa, a repercussão rendeu vários shows pelo Brasil e pelo menos duas apresentações na Europa (França e Alemanha), onde o Volume 02 das “Lambadas das Quebradas” foi lançado pela extinta gravadora Continental. Esse processo de redescoberta durou até 2008, quando lançou o disco "Música Magneta", em parceria com Pio, Dolores e outros músicos de Recife (PE). Em 2009, Vieira lançou ainda "Música Magnética" pelo selo Na Music, cuja tiragem inicial se esgotou em menos de um ano.

Fevereiro de 2012. Noite após noite pelo gtalk, troco figurinhas com a jornalista Luciana Medeiros, diretora e coordenadora do projeto “Mestre Vieira – 50 Anos de Guitarradas”, que inclui show gravado e documentário ao lado d’Os Dinâmicos, grupo que acompanhou Veira até o início dos anos 1990, quando o mercado já não garantia a reunião da banda. Combinamos de ir até Barcarena, nordeste paraense, menos de duas horas de carro pela Alça Viária ou uma hora a menos de barco saindo da orla de Belém. Depois de duas tentativas, agendamos a ida para um sábado. Minha equipe está a postos. Estou ansioso para rever Vieira, com quem viajei para Salvador em 2003, quando tocava com a banda Norman Bates. Tive a honra dele tocar na minha guitarra no Festival de Verão em Algodoal, um ano depois.

Vieira, Felix, Pio e Cordeiro, o mestre e seus seguidores

Mas uma mensagem de celular na noite anterior deixa minha expectativa frustrada. Época de carnaval, Vieira aproveita e faz muitos shows pelas redondezas de Barcarena, não tem tempo na agenda para dar entrevistas ou reunir o grupo para as gravações. O show no final do ano passado no Festival Se Rasgum rendeu um bonus que vai estar no DVD e uma boa repercussão. Ainda nesse semestre outro show (com  participações especiais que podem trazer a Belém grandes músicos nacionais influenciados por Vieira) deve acontecer para a gravação da parte musical do DVD. O projeto ainda prevê a gravação um disco novo, mas essa parte carece de patrocínio ainda. Para um senhor de 77 anos, que parecia esquecido...minha frustração logo se preenche com uma boa sensação.

Luciana agora é produtora do grupo também e pretende agenciar show nacionais. Ela me pergunta onde pode mandar confeccionar palhetas de guitarra com a marca de Veiria, e diz que ele está empolgado com o novo grupo. Prometo dar a ela uma cópia do TCC de Pio Lobato, documento sobre as guitarradas que nem mesmo o autor tem mais.

Em troca, a jornaslista leva as minhas perguntas para Veira noutro dia. Ele responde, ela manda as respostas por e-mail. Vieira diz que nunca pensou em sair de Barcarena. Mas por que deveria? Quem quiser que vá vê-lo, afinal de contas, ele é o rei das guitarradas. Os ingleses foram lá. “Durante as gravações, é um entra e sai generalizado da casa dele. É tudo muito simples, mas ele acolhe muito bem as pessoas”, conta Luciana.

Ainda esse mês entra no ar o site de Vieira. Para não perder o timing, decido contar como anda o projeto mesmo sem ir a sua cidade natal, com a ajuda de Luciana. Pergunto sobre Pio Lobato, o homem responsável pelo redescobrimento.  “Ele veio atrás de mim e deste encontro formamos o grupo Mestres da Guitarrada, mas faltou ter uma boa continuidade para o cenário nacional, não é? Mas o Pio é bom, toca bem, tem boa experiência, bom músico. Quando ele me procurou soube que já estava me procurando algum tempo. Eu tinha acabado de gravar para o projeto Música do Brasil, do Hermano Vianna, foi assim que ele me encontrou”, relembra.

O “Música do Brasil” foi um documentário gravado antes de 2002 em Belém e outras capitais, e reuniu paraense engajados na música regional contemporânea: Cravo Carbono, Mangabezo, Laurentino. A partir de lá, muitas coisas degringolaram, no bom sentido, na música paraense. O rock mais duro começou a amolecer, a suingar. O Cravo Carbono se desfez mas Pio virou “o cara”. Mangabezo virou Coletivo Rádio Cipó e mostrou ao Brasil e ao mundo o roqueiro Laurentino (foi parar no Faustão como atração exótica). Depois de Pio, Vieira ainda influenciou Felix Robatto, que ajudou a criar o grupo La Pupuña, e hoje acompanha a musa Gaby Amarantos; e Felipe Cordeiro, filho de Manoel Cordeiro, outro empresário da lambada, e ele mesmo um dos novos nomes dessa redescoberta.

Luciana Medeiros reuniu os quatro (Pio, Felix, Felipe e Veira) cada um com uma guitarrada na mão, mostrando o que aprenderam com o mestre. Fico só na expectativa. Lembro daquele documentário em que The Edge, Jimmy Page e Jack White trocam figurinhas sobre seus instrumentos. Guardadas as devidas proporções... nem é tão exagero assim, afinal a Rolling Stone colocou Veira, mui merecidamente, entre os 100 maiores guitarristas do Brasil. Está no site da revista (confira nos links ao final deste texto).

Generosidade é um traço sempre lembrado da personalidade de Vieira. Talvez seja um eufemismo para ingenuidade, mas o fato (ou a lenda) é que ele "doou" seus direitos para o empresário Carlos Santos, que lançou Lambada das Quebradas com o pseudônimo de Carlos Marajó. Nome também usado por Aldo Sena, aluno de Vieira, nos volumes seguintes, e com quem o negócio dos Mestres da Guitarrada não proliferou. Mas Vieira, como todo homem generoso, não parece se importar muito com as mágoas do passado.

“Hoje eu me reencontrei com os músicos daquela época e estamos com um show muito bonito. Estamos ensaiando, vamos gravar novamente junto ao projeto dos 50 anos e estamos muito felizes com isso. Estou querendo mudar para dar certo novamente, comecei a colocar música cantada nos shows, além de manter a guitarrada instrumental que eu gosto demais. Só ainda não consigo resolver as questões dos direitos autorais, deixei a algum tempo de receber meus direitos. Estamos também tentando resolver isso agora, e vamos chegar lá”, comenta, ele que dá entrevistas também para site de outros estados, como O Inimigo, de Natal.

Vieira vai contar seus causos no doc de Luciana Medeiros

É para frente que se olha, mas sem esquecer o passado pois quem já foi rei nunca perde a majestade, diz o dito popular. E Vieira é um homem do povo. Cresceu na beira do Rio, de onde o pai, português, saía para vê-lo tocar bandolim. “Ele não gostava das músicas que tocavam, mas quando eu disse que queria tocar um instrumento da Terra dele (Portugal), ele mudou de ideia. Então quando a gente começava a tocar ele saia do rio, onde estava tomando banho e vinha ouvir. Lembro que certa vez o fiz dormir tocando no bandolim o fado, que ele tanto gostava”, relembra Vieira ao site do Rio Grande do Norte, também através de Luciana.

Aos 14 anos de idade, ele ganhou um concurso de uma rádio popular e gravou uma música. Na confusão de estilos, gêneros e de nomes, não se tem certeza de quem inventou a lambada como ritmo, mas a guitarrada só tem um rei. “Todo mundo dizendo que é rei da lambada, mas o rei da guitarrada, sou eu”, manda Vieira.

O resto é uma história razoavelmente conhecida pelos ingleses, e por alguns brasileiros. Mas estou certo de que Luciana vai ajudar a mudar definitivamente essa história. Ela trabalha no projeto há anos e pretende lançá-lo em outubro com patrocínio da Vivo, via programa Conexão Vivo, Lei Semear,  Governo do Estado, e com o apoio da Prefeitura de Barcarena, Albras, IAP e Sol Informática. 

 

“Queria ressaltar que não faria tudo isso sozinha, sem contar com uma equipe que chegou a ter 40 pessoas em determinados momentos das gravações, como nos shows e encontros musicais. A ficha técnica básica do documentário conta com Marcelo Rodrigues (direção de fotografia); Leo Chermont (som direto), Cristina Costa (direção de produção), Luiza Bastos (produção executiva), Renato Chalu (making of), além de Wandreson Lobato, Michele Maia, Andrea Rocha e Givaldo Pastana (produção)”, informa Luciana. O site do projeto www.mestrevieira.com.br

 

NA REDE:

Diário de Viagem da Curadora do British Council

Vieira no Toque no Brasil

No perfil do Pará Música

No site da revista Rolling Stone

No blog O Inimigo 

 

 

Elielton Amador às vezes usa o pseudonimo de Nicolau, é ex-guitarrista da banda Norman Bates e jornalista, editor do Pará Música.

03 de abril, 2012 - 06h19
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Comentários (16):

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