Pará Musical
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Antes da Chuva  

Sebastião Tapajós retorna ao palco do Theatro da Paz

Violonista mundialmente famoso por seu virtuosismo diz que este pode ser seu último show, porém, ele afirma que não vai se aposentar. Deverá seguir apenas com trabalhos de estúdio

Por Elielton Nicolau Amador Fotos: Alan Soares e Arquivo Pessoal
Sebastião Tapajós fazendo pose no ensaio fotográfico com Alan Soares
 
 
São 10 horas da manhã do dia 23 de abril e eu chego ao estúdio do fotógrafo Alan Soares, no bairro de Nazaré, em Belém. Meu objetivo é acompanhar o ensaio fotográfico com o violonista Sebastião Tapajós, 74 anos, talvez o músico amazônico mais conhecido entre os anos 1970 e 1990 em todo o mundo. 
 
Tião, como é conhecido entre os amigos, nasceu em um barco que navegava pelo baixo Amazonas. Aprendeu a tocar violão ainda criança, encantado pelos seresteiros da região. Veio para Belém na juventude e integrou o grupo Os Mocorongos, que chamava atenção pelos seus virtuosos solos. Encantou a comunidade portuguesa da cidade, que lhe deu uma bolsa para estudar na Europa. Foi só o começo de uma longa trajetória que se completou em ciclos de grandeza: 65 anos, mais de 50 discos, mais de 500 shows em mais de 30 países.  “Uma vez tive que sair direto de Santarém para a Finlândia, 30 horas de voo, e no final aquele frio terrível”, contou Tião depois do ensaio.
 
Toda essa história me vinha à cabeça enquanto eu acompanhava a sessão de fotos para divulgar o show “Por Entre as Árvores”, do próximo dia 7 de maio no Theatro da Paz. Talvez seja o último show da carreira dele. Pelo menos é o que ele diz. Perguntei se ia se aposentar e ele refutou a ideia com veemência. “Jamais vou me aposentar! Acho que vou morrer tocando. Mas é hora de passar o bastão para essa juventude que vem surgindo, cheia de talento”, disse, enquanto se referia a outros músicos, como Igor Capela, que também participava do ensaio e estará presente no palco junto com ele. 
 
Sebastião deve continuar fora dos palcos, gravando. Anunciou que tem um disco com Igor Capela e outro com Ney Conceição, contrabaixista quase tão famoso quanto Tião e que também estará no Theatro da Paz no dia 7 de maio. “Ainda não começamos este (com Ney Conceição). Gravo em Belém e em Santarém aos poucos”, explica.
 
Parece mesmo difícil fazê-lo parar de trabalhar. Há alguns anos um acidente vascular limitou seus movimentos, mas não o impediu de tocar. Ao contrário, o violão parece ajudar na recuperação que hoje é quase completa. Ele gosta mesmo é de trabalhar. Fazer fotos não parece ser seu passatempo preferido, a única pose que sabe fazer é dedilhar o violão. Mas, profissional, ele não reclama. Quando alguém lhe tira o instrumento por alguns minutos logo ele pede de volta. “Minha vida sempre foi a dois, né? Digo ‘a dois’ porque sou eu e meu violão”, diz ele em um dos episódios do Sonoro Pará, projeto que foi lançado recentemente pela TV Cultura do Pará e do qual Tião faz parte.
 
Mas mesmo sem habilidade para posar nas fotos, Tião não perde a paciência nem a cordialidade. Nem quando peço para gravar um vídeo para a chamada do show na Internet. Sugiro que convide as pessoas com uma frase mais publicitária e ele acha ruim. “Sem, problema mestre, façamos como você achar e se sentir melhor, apenas toque uma frase bonita ao violão antes e depois”, peço. Foi o suficiente para que em poucas horas o vídeo tivesse mais de 2,5 mil visualizações e dezenas de compartilhamentos, sem ser pago. 
 
Sebastião é carismático. Sempre foi humilde e prezou pelo carinho dos amigos. É parte do que o faz tão popular, junto com sua genialidade. Conto que um velho conhecido dos músicos de Belém, Moizés Freire, está abrindo uma loja de instrumentos. Ele diz que vai ligar para ele para fazer uma visita. “Ele me ligou. Disse que vai agendar uma visita mas quer mesmo é fazer uma visita em minha casa e comer a caldeirada de filhote que eu faço”, contou Moizés depois.
 
Igor Capela que desponta como um dos violonistas mais talentosos da cena de Belém, reverencia Sebastião há tempos. “Eu acompanhei a carreira dele, me inspirou, com os livros, os discos e na televisão também, onde eu o via de vez em quando. Para mim é uma honra participar desse show”, explica. 
 
Músicas - Sobre o show, Tião fala pouco. Quem explica melhor é o pianista Andreson Dourado. Santareno que acompanha o mestre desde seu penúltimo disco, “Da Lapa ao Mascote” (2013). O nome do espetáculo, “Por entre as árvores”, que também é o título de uma das canções do repertório, define a vontade do músico de transportar o ambiente sensorial de sua residência, em Santarém, para dentro do palco.  “A música tem esse nome por conta do ambiente onde foi composta, na sala de ensaios que fica em frente a muitas árvores. Entre elas, a visão do Rio Tapajós, que Sebastião diz que é sua piscina de 20 mil quilômetros de extensão”, brinca Dourado, que a missão de preparar os arranjos de piano.
 
Além de Andreson, Ney Conceição e Igor Capela, participam do show Pedrinho Cavalléro (que vai lançar no show uma música inédita feita com Tião), Trio Manari, Mestre Solano (da Guitarrada) e a Cia. de Dança Ana Unger. De acordo com o pianista, praticamente 80% das composições são inéditas, o que cria grande expectativa no público de Sebastião. “O estilo das canções representa a essência da música brasileira, com foco no regionalismo característico, no que foi conhecido mundialmente como ‘o violão de Sebastião Tapajós’”, reporta Andreson.
 
De fato, Sebastião Pena Marcião, como conta Alfredo Oliveira em seu já clássico livro “Ritmos e Cantares”, é talvez o músico amazônico mais celebrado internacionalmente. Com a bolsa que ganhou em Belém, ele estuou em Portugal e na Espanha, onde também se apresentou, causando sempre grande impacto em seu público.
 
Depois que voltou tentou ser professor de música em Belém, mas desistiu porque tinha que tocar na noite para completar o salário. Vendo que não tinha muitas perspectiva locais, ele mudou para o Rio de Janeiro em 1967, onde não parou de encantar o público e foi contratado por várias gravadoras, chegando a gravar oito discos em três anos pelo selo do argentino Astor Piazzola. Sua carreira internacional deslanchou. Caiu nas graças principalmente da Alemanha, onde gravou dezenas de discos. 
 
Com estilo único e inconfundível, o violão de Sebastião Tapajós viaja por uma harmonia densa e melodias fluídas ora delicadas ora cheias de ataque percussivo. Os nomes de alguns de seus primeiros discos de sucesso dão o tom dessa magia: “Guitarra Cósmica” (1968), “Guitarra Fantástica” (1974) e “Guitarra Crioula” (1982), que ganhou o prêmio de Disco do Ano na Alemanha. Profícuo em sua produção, Tião lançou em 2015 seu mais recente disco “Aos da Guitarrada”, em que, como um artista midiático, dialoga e festeja com o celebrado gênero paraense. 
 
“Para ser bem sincero, o violão é a razão da minha vida. Ele é para mim, desde a minha infância em Santarém, a ajuda indispensável para uma boa comunicação”, disse ele certa vez nos idos 1970. 
 
 
SERVIÇO:
Por entre as árvores – Show com Sebastião Tapajós
Participações Especiais: Trio Manari, Ney Conceição, Mestre Solano, Pedrinho Cavalléro, Igor Capela e Cia. de Dança Ana Unger.
Dia 7 de maio no Theatro da Paz – às 20 horas
 
Entrada Franca
Ingressos serão distribuídos no dia do evento no Theatro da Paz. 
 
02 de maio, 2016 - 14h17
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